terça-feira, 31 de dezembro de 2024

A HORA MÁGICA

Estava previsto que um homem lavaria meus pés.
Que passaríamos o véu do tempo e entraríamos na hora mágica.
Ainda quero estar lá.
Mas também não.
Como pode algo ser tão bom e fazer tão mal?
Peço ajuda na boca da mata.
Entramos...ela me seduz e avisa dos perigos, mas eu queria me entregar.
Invasão? 
Poder e honra que tú não sabes que teve em suas mãos.
Invasão? Se adentramos juntos as Brumas que evocamos juntos.
A magia também habita em tí.
Ele não! ele não! dizia a voz,  sensível e quase inaudível das fadas.
Sentidos embriagados pelo vinho, na noite fresca de outubro, ele entra às verdades saltam.
Salto em seu colo, me deleito com desejo em seus braços tatuados em seu mundo de sabores, cores e delicadeza que nem sabe que tens.
Desperta homem o mago que mora em seu rochedo.
Minha benção a tí.
Sei que queres me tomar ali mesmo, me jogar nas folhas irmãs.
Mas vamos ao quarto, ninho ancestral, quantas vezes estivemos lá?
E nele o  terço na parede, aguça minha recordação.
Nada disso fez sentido por tanto ter sentido a alma se foi.
Quero um amor assim, natural, mas nada tem órbita se não for dilacerante, se nas veias não pulsar a real entrega.
Entrego a ti o Punhal, mas não me feriste, eu mesma fiz. Confesso.
Escondo da visão a garrafa de vinho branco, que outrora guardei por nós.
Sinto a ausência dos seus olhos que um dia pude adentrar, colocastes novamente as vendas.
Malditas!
Tudo foi mágico naquela hora, o silêncio, a chuva, o cão a brincar, o gato a se aconchegar. Os ancestrais sabiam o que estava acontecendo.
Eu mesma não sabia, tinha vaga impressão, me entreguei a presença e isso bastava para a magia escorrer, naturalmente, como a água brota da pedreira, imundei você, eu sei que sentiste.
Na cabana sem luz, só a nossa brilhava a milhas, no ato mágico libertador, você puxou o cobertor até meus ombros eu senti. Estava feito!
Me senti protegia em ti, armadilha! 
Ilusão do portal de proteção que adentramos.
Tudo fez sentindo na hora mágica, só você não sabe disso. Não quis saber.
Eu me entreguei, fiquei refém do seu querer.
Ah, querência! A venda nos olhos, não deixaste eu tirar.
Será o único, que não me deixou ser bruxa.
Chamou por mim, gritou, implorou.
Bruxa! Bruxa!
E quando eu cheguei para atravesar a sua lama com sorrisos e horas mágicas, quebrando barreiras de penhascos e penetrei em seus olhos de hidromel.
Tão fortes e doces quanto os de um rei.
Tú negaste a magia.
Cabe a mim entender.
Cabe a mim não mais te querer.
Cabe a mim nunca mais me entregar a quem não entende o querer de uma bruxa.
Ah, querência! Teima, escorre de mim naturalmente, mas eu aprendi a te conter em mim, para eu me querer.
O crucifixo na parede irá ficar, a ladainha magia harmoniosa ecoará e que ela  possa abrir mais portais mágicos e sua vida com outra destravar.
O feitiço está feito, de uma forma ou outra eu fui bruxa onde me negaram. 
Talvez um dia a querência volte e as vendas negras caiam ao chão.
Até lá eu me ergo do mesmo chão frio que me jogaste.
Não! O chão humilhante que eu mesma  joguei-me.
Cabe a mim, nunca mais estar lá.
Cabe a mim continuar a ser bruxa.
Cabe a mim continuar a amar mas não mais te amar-te.
Estava na linha do destino, tênue, sutil em perfeita leveza, você lavaria meus pés e me negaria.


domingo, 29 de dezembro de 2024

INVASÃO

Não pira disse ele.
A fragilidade da flor não conseguiu sustentar o prometido, só um beijo.
O sol queimou.
A terra seca ficou.
Sem falar, sem tato nem contato.
A bruxa invadiu três corações.
E os loucos negaram exílio.
Só queria a bruxa o aconchego da fantasia.
Esqueceu ela que não é princesa.
O caldeirão borbulha, a magia sangra
A realidade cobra.
Vítima, não! Não seja fraca, sabes bem o que fez e o que não fez.
Dança livre bruxa, seja leve, cultive.
A irá toma conta, o grito, a mordida, o amaranhado do cabelo.
Da torre solitária ela deseja.
Estrupa, invadi, retalha.
Bondade a sua, o cerne transcende.
A algum momento a ironia acaba.
A donzela quer ser bruxa e a bruxa quer ser donzela.
Vai ao espelho.
Diga, decreta, profetiza.
Vês agora, são as mesmas 
Porque divide?
Porque queres o coração dela na caixa?
Arranque o seu.
Seja luz e sombra completa e nunca mais precisará invadir.
Quando o feiticeiro assim chegar saberás que tens o universo ao seu lado, enxergará seu coração,todas luas, todas fartas, todas, todas... Tesouro sagrado, só ele entenderá, o jardim livre à cultivo e o mar  ímpeto de nascer, que é ser mulher bruxa e donzela.



quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

A MINHA ESTÓRIA SEM FIM

Então vamos lá!
Disse ao gato, que se recusava a levantar da beira do caldeirão:
- Gato dorminhoco! Irei arrumar outro amigo e quando assim eu fizer não adianta ronronar atrás de mim.
Mas nem adiantou; o gato afrontoso, deu-lhe um miado e se enrolou de novo, confortavelmente em seu mundo.
A bruxinha de dez anos, deu as costas e saiu pelo castro costeiro de baronã a queimar a cuca em pensamentos de qual animal seria seu novo amigo, foi ao encontro do mar, mas não tirou as sandálias, o mar não a interessava, não naquele dia cinza na antiga Galiza.
Então a bruxa ruiva, rumou para a floresta, talvez sim aquele dia seria mais interessante lá, talvez um troll apareceria para ela ou talvez  ainda uma fada, mas dessa ela tinha medo, pensava e pensava...
Essa é a nossa bruxa galega, ela tem cheiro de blueberry.
O dragão também tinha dez anos.
Tinha saído do ovo há alguns dias, se sentia só, porque seus irmãos ainda não tinham rompido aquela casca rosa de bolinhas amarelas e sua mãe ainda estava lá a cuidar, mas ele saiu antes, se sentiu corajoso, queria ele sentir os cheiros, queria ele ver as cores, queria ele um...amigo.
Sentiu o cheiro da floresta úmida, o cheiro do cogumelo e o seu cheiro, ele não sabia mas era um doce cheiro de algodão e vanilla.
Aprendeu o dragãozinho a ficar invisível e sua mãe o alertou do bicho humano.
A cor azul predominava na suas escamas, fruta cor.
Era um bichinho lindo de se vê.
Mágico e sensível.
Batia as asinhas e comia cornus.
Mas ainda se sentia só.
Então a bruxa ruiva se dirigia a floresta, gostaria de contar que foi um espantoso encontro, cheio de "de repente" mas foi algo bem normal.
Se olharam e se estranharam.
A bruxinha perguntou a sí mesma que animalzinho seria aquele, já tinha ouvido estória sobre, mas achou que "aquilo" seria pequeno demais pra ser o terrível dragão, que seu avô Alan contava.
Mas depois dele sair de trás da árvore e ficar visível novamente, não teve mais dúvidas, era um bebê dragão.
Para ambos a visão era linda de se vê, ele fruta cor ela vermelha que só.
Foram se aproximando e a bruxa corajosa, passou a mão nas frias escamas.
Ele reparou nas cores dela, o cabelo vermelho, o rosto pintadinho, branca e com os olhos azuis como ele, o vestido também branco a capa também era azul, pensou ele a humana deve gostar da cor azul, então ela gostou de mim, mas nem de longe era o terrível humano que a mãe alertou, ela era ainda um bebê humano.
Então será que poderiam ser amigos?
Andaram juntos pela floresta e ele foi até perto do castro, ela lhe mostrou o mar e contava sobre tudo do seu pequeno mundo. 
Sim eles se tornaram amigos.
E o gato da bruxa, nem ligou, continuou a dormir, quando avistou o dragãozinho olhando pela janela 
Para o dragão era incrível, ela cheirava blueberry.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

CELESTIAL

Ah yule!  será que de ti tudo já escrevi?
Sinto a terra fria descalça entre a floresta da ilha esmeralda.
Os musgos são eles, que conectam o pulsar e o viver.
Continuo a colher meus cogumelos.
Doce cheiro embriagante.
O leite da cabra, o pão de galway
O cornus e o azevinho.
Espreito o momento certo do druida disser.
E para mim yule só começava naquela manhã quando ele dizia:
- Está pronto o hidromel!
Ah yule! de ti só sei sentir sua presença.
Nada poderia abater sobre o casa do penhasco.
Naquela noite escura e invernosa de yule, o coração protegido e  aquecido da menina bruxa.
Para mim yule é a presença do aconchego e do zelo no ceio familiar e a certeza na fé trazida pela estrela mística de que o deus sol voltará a aquecer.
Perfeito parto celestial.
Pela honra da deusa na terra.



terça-feira, 3 de dezembro de 2024

TSARA QUENTE

Desejo sua tsara quente.
O pão ofertado.
E quando faltar as sandálias
Não lhe falte poeira  que suba na estrada e faça você continuar.
Caminhas se quiser.
Se não esmoreça em alguma parada qualquer.
A lua continuará a iluminar as profundas fendas da sua pele.
Refletirá sua luz no olhar se assim tu quiseres.
Dourado é a luz que desce em ti.
Se transmuta com o puro lilás.
Riqueza sem explicação.
Humanos, humanos...
Só nos resta a boa fé.
Eu lhe mando a chuva.
Tu aceitas se quiser.
Eu mando a benção.
Tu rejeita se quiser.
Te mando a sorte.
Tu rola os dados se quiser.
No pedido que se decreta 
A magia se fortalece.
A certeza do sol perante a tempestade nada mais clichê, nada mais sal.
A roda da carroça para
E então? 
Trocamos amanhã.